Dependentes de álcool que procuram tratamento especializado apresentam sucesso nos programas de tratamento.

Dependentes de álcool com doenças gastrointestinais demonstram pior prognóstico e taxa de mortalidade aumentada quando comparados a pacientes da gastroenterologia que não consomem álcool e com a população geral. Objetivo: Apresentar os resultados de um estudo que visou a verificar o que aconteceu com dependentes de álcool após a procura de tratamento em dois ambulatórios. Métodos: Estudo de seguimento com 228 dependentes de álcool Resultados: Foi encontrado alto índice de mortalidade da amostra (15%; n = 34), destes, 70,5% (n = 24) eram da gastroenterologia. Os pacientes do ambulatório especializado no tratamento do alcoolismo, mais jovens, apresentaram dependência de álcool mais grave e sofreram mais problemas conseqüentes do hábito de beber nos aspectos emocionais e de saúde mental. No grupo da gastroenterologia, ocorreu diminuição da dor, mas, em contrapartida, diminuição na qualidade dos aspectos sociais. Conclusão: Verificou-se a necessidade de constante adequação das intervenções às necessidades dos dependentes de álcool, de implantação de novas abordagens de tratamento com o intuito de melhorar a efetividade e de intervenções psicossociais que visem ao consumo de bebidas

A dependência do álcool acomete de 10% a 12% da população mundial (OMS, 1999) e, de acordo com o primeiro levantamento domiciliar sobre o uso de drogas (Carlini et al., 2002), 11,2% dos brasileiros que vivem nas 107 maiores cidades do País. No entanto, a porcentagem de pessoas que já havia recebido algum tratamento para o uso de álcool foi de apenas 4%. Diante de tal situação, pode-se concluir que os problemas relacionados ao consumo de álcool são igualmente alarmantes e responsáveis por mais de 10% dos problemas totais de saúde no Brasil (Meloni e Laranjeira, 2004). Entre outras doenças, o consumo do álcool pode causar importantes alterações na mucosa gastrointestinal, no pâncreas e no fígado (Seitz e Homann, 2001). Segundo o consenso sobre a síndrome da abstinência do álcool (Laranjeira et al., 2000), as principais comorbidades clínicas do sistema gastrointestinal associadas ao consumo de bebidas alcoólicas são: pancreatite crônica, esteatose hepática, hepatite alcoólica, hemorragia digestiva, cirrose hepática com ou sem hepatite alcoólica, gastrite, esofagite de refluxo e tumores. Bouchier et al. (1992), Yuan et al. (1997), Pessione et al. (2003), Jepsen et al. (2003), Ramstedt (2003), Sorensen et al. (2003) e Dam-Larsen et al. (2004), em seus estudos (incluindo aqueles de seguimento), apontam que indivíduos com doenças gastrointestinais que abusam do álcool apresentam pior prognóstico e taxa de mortalidade aumentada quando comparados àqueles que não consomem álcool e à população geral. Uma pesquisa realizada em um hospital da Escócia revelou que circunstâncias relacionadas ao álcool representavam 51% das internações na gastroenterologia, e 65% desses pacientes apresentavam doenças hepáticas alcoólicas (Waddell e Hislop, 2003). No Brasil, estudos também mostram prevalência elevada de pacientes com problemas relacionados ao álcool em ambulatório de gastroenterologia quando comparado a outros ambulatórios do hospital geral (Figlie et al., 1997; Turisco et al., 2000). Ainda no Brasil, o álcool é responsável por mais de 90% das internações hospitalares por dependência(Carlini et al., 2002). Em relação aos pacientes internados por problemas psiquiátricos, aproximadamente 35% apresentam problemas decorrentes do uso de substâncias psicoativas, sendo 90% ligados ao consumo de álcool (Noto e Carlini, 1995). No entanto, a maior parte daqueles que procuram tratamento opta por ajuda médica geral e não por tratamento especializado em saúde mental (Turisco et al., 2000). Em relação aos que buscam tratamento especializado, estudos de seguimento internacionais demonstram que as taxas de abstinência permanecem abaixo de 20%. Em um estudo do final da década de 1970 (Orford e Edwards, 1977), observou-se que, após 2 meses, 55% dos pacientes que receberam tratamento preencheram critérios para o sucesso (menos de 10 dias de ingestão de bebidas em 2 meses); em 6 meses, essa cifra diminuiu para 35%; ao término de 2 anos, para 20%. Ao final desse estudo, o padrão de consumo alcoólico da amostra não submetida a tratamento foi idêntica à amostra sujeita a tratamento. Após duas décadas, estudos de seguimento apresentaram índices semelhantes. Um deles, com duração de 20 anos (Edwards e Dare, 1997) e amostra de 100 homens com dependência alcoólica, idade média de 42 anos, constatou que 44% morreram, 17% ainda estavam bebendo de modo dependente e 17% estavam abstinentes. Nos 11% que haviam chegado a beber socialmente estavam inclusos sujeitos cuja perda de tolerância ou estado de saúde física impediam qualquer coisa além de uma ingestão moderada. Outro estudo (Paille et al., 1995) encontrou 13,3% de abstinência no seguimento de 1 ano. Em 2003, uma pesquisa (Moss e Moss, 2003) com pacientes tratados ambulatorialmente por até 8 semanas encontrou 25,9% de abstinência. Esses dados praticamente não revelam evolução no que diz respeito ao sucesso dos tratamentos com o passar dos anos. Mais recentemente, Bottlender e Soyka (2005b), em um estudo de seguimento bem controlado com uma amostra de 103 dependentes de álcool entrevistados 6, 12, 24 e 36 meses após o fim do tratamento, que investigou preceptores de recaída após 3 anos do término de um programa de tratamento ambulatorial, apresentaram resultados mais animadores quando comparados aosanteriores: 74 pacientes terminaram o programa de tratamento; após 36 meses, 2 pacientes morreram, 88% participaram da entrevista de seguimento, 43% estavam abstinentes, 45% tinham recaído e 12% apresentaram sucesso no tratamento. As variáveis significativas para a predição da recaída foram abandono do tratamento, sexo feminino e poucos eventos de vida positivos.Fonte http://www.scielo.br/pdf/rpc/v33n6/03